segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Liderança aprende-se na prática: "Como dar uma “mãozinha” ao seu aprendizado no dia a dia como gestor?" por Daniel Maldaner*

Semanalmente a equipe de Julia se reunia para fazer o acompanhamento das atividades e dos resultados. Raramente as informações trazidas pelos membros da equipe eram completas ou minuciosas o suficiente para que alguma conclusão pudesse ser tirada a fim de alimentar o relatório gerencial a ser entregue à diretoria. Julia, como gestora da equipe, passou a cobrar maior comprometimento. Para ela, era inconcebível tamanho desleixo das pessoas e ficava nervosa toda vez que se deparava com falta de informações. Chamava a atenção de sua equipe nas reuniões e em conversas particulares. Contudo, a melhora nas informações não foi alcançada. A equipe começou a reclamar da excessiva cobrança da chefe e do seu distanciamento. O clima de trabalho piorou e Julia começou a ser cobrada pela diretoria por falta de informações de sua equipe.

Carlos é diretor de uma multinacional. Recentemente assumiu uma nova área para além da que já gerenciava, movimento gerado por restruturação da empresa. Carlos é de poucas palavras. A sua equipe já havia reclamado de sua dificuldade de abertura para o RH. Quando se viu no desafio de assumir a nova área, logo se prontificou a marcar um encontro com eles, expondo os desafios, objetivos, metas e ouvindo deles o que pensavam de toda a mudança que estava ocorrendo na empresa. Foi uma conversa de 4 horas. Carlos sabia que a equipe que acabara de assumir era gerenciada por um gestor não bem quisto e que havia sido demitido por seu “mau comportamento” como líder. Carlos começou a notar que os membros das duas equipes, que deveriam ser unificadas, não se integraram como ele desejava. Saiam para almoçar cada grupo em separado. Logo as reclamações de retenção de informação começaram a surgir. Piadinhas e risos eram frequentes. Nas reuniões conjuntas, cada equipe sentava de um lado da mesa. Quando se falavam, o que reinava eram justificativas e argumentos de defesa. A reestruturação da empresa começou a ser reavaliada pela matriz.

Carolina é gestora de um escritório de representação comercial no Brasil. Seu principal objetivo é manter e ampliar a carteira de clientes e vendas dos acessórios para telefonia celular importados da China. Ela gerencia o relacionamento com os clientes no Brasil.  Sua colega, Paula, que antes ocupara a sua posição, continua a atender o maior cliente, fazendo isso de São Francisco (EUA), sede da empresa. Paula e Carolina são pares na estrutura da organização. Carolina tem dificuldades de conversar com Paula, pois acredita que ela não deveria estar atendendo este cliente no Brasil e reclama de falta de abertura da colega. Este principal cliente, diminuiu em 70% seus pedidos em 2015. Paula acredita que a diminuição dos pedidos é em decorrência da crise no Brasil. Carolina, no entanto, sabe que o cliente está comprando o mesmo volume que antes de outro fornecedor. Sabe ainda que o preço pedido por ele para comprar os produtos é inviável comercialmente pelos custos de importação. Carolina e Paula não trocam estas informações.

Ao ler este relato você deve estar imaginando uma serie de soluções para estas situações. E, ainda, como é possível estes gestores não enxergarem os erros que estão cometendo e se perguntando por qual razão eles não mudam a forma de agir já que estão prejudicando a eles, a equipe e a organização.

De fora, a solução é mais simples do que para quem a vive a situação. E apenas o gestor que está imerso na situação pode encontrar a solução capaz de modificar o cenário. Mas o que de fato pode ajudar este gestor a enxergar e modificar sua forma de agir nas situações que enfrentam?

A resposta não é direta, única ou mágica. O desafio colocado ao gestor atualmente é de se engajar no seu próprio processo de desenvolvimento, a partir da sua prática e realidade de trabalho. Apenas desta forma ele poderá encontrar as soluções para as suas dificuldades enfrentadas no dia a dia.

Alguns movimentos para isso:

  • Ampliar a compreensão de si, da forma que age e os impactos que gera na equipe, no ambiente e nos resultados. As pessoas ao redor (equipe, pares, gestores), normalmente, desejam fornecer suas percepções a fim de ajudar na mudança. O gestor precisa estar aberto a isto. Compreender o papel que ocupa dentro da equipe. Gestor é a posição, papel é qualidade com que ocupa esta posição. Se você perguntar à sua equipe, eles lhe dirão se confiarem em você.
  • Apropriar-se da responsabilidade e do desejo de gerar transformações em si que gerem transformações no ambiente. Elaborar uma visão poderosa o suficiente para criar movimento e romper com a mesmice que os padrões de comportamentos fornecem.
  • Praticar. Mudar um comportamento é um processo e não uma ação única. Precisa de prática e reflexão. Enxergar ganhos. Ver vantagens.

Gestores têm o poder e potencial para serem agentes de mudanças e mobilizadores de resultados, não apenas financeiros, mas também humanos. As organizações desejam e precisam disso. Ainda mais no cenário instável atual. Romper com o paradigma de que o problema é do outro, do mundo, do cenário e passar a fazer parte. Assumir a responsabilidade. Olhar para si, para sua prática, para a forma como age com a equipe e com os pares, a maneira como se relaciona com a organização. Este é o convite inicial. O caminho do desenvolvimento será construído. Vamos?


 * Daniel Maldaner é consultor em processos de desenvolvimento de líderes, equipes, pessoas e organizações. Formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduado em dinâmica dos grupos pela Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos (SBDG), sendo titulado como “coordenador de grupos” pela SBDG. Formado como Coach pelo Erickson College International, certificado no MBTI® e pós-graduando no programa “Reflective Social Practice” pelo Crossfields Institute (UK) e  Alanus University em Bonn, Alemanha. Com 14 anos de experiência em programas de desenvolvimento de líderes, em processos de desenvolvimento de equipes e Coaching em mais de 60 empresas nacionais e multinacionais.
Conheça mais: www.danielmaldaner.com.br









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