Há alguns dias
conversando com uma de minhas amigas queridas, começamos a refletir mais
profundamente sobre a nossa condição de Ser feminino nos dias de hoje. Falávamos
sobre as reflexões que a vida está trazendo num ano onde nós duas estamos sendo
de alguma forma obrigadas a nos voltar para uma vida além da carreira. Nós
somos pessoas descoladas, no começo dos 30, espiritualistas, viajadas,
bem-sucedidas, temos relacionamentos felizes. Mas a ansiedade bate à porta: por
que não estou conseguindo tudo o que quero, aqui e agora? Será que sou/ estou
fazendo o suficiente? Qual é a minha lição? Qual é o meu propósito?
Sabemos do poder que
se move quando a energia feminina entra em ação. A gente flui, ri e chora, a
gente faz multi-tasking, procria, cria, cuida, e ainda atinge todas as metas 1
semana antes do prazo. Entrega e agrada. A gente tem tato, sedução, empatia, toque
e sabedoria. A gente é empreendedora, guerreira, faz muito com pouco, somos
filhas da terra, da água, do ar e do fogo. O elemento feminino é a própria
variedade.
Entre tantas
possibilidades, talvez nos falte um pouco de foco e introspecção pra definir
quais são mesmo os nossos valores, desejos e objetivos. E aí levar a vida com
fluidez, sabendo que os ciclos vêm e a gente vai mudando com eles. Por um lado
muitas de nós pelo mundo afora podemos celebrar que hoje temos a chance de
exercer o papel que quisermos, em todas as esferas da vida. Temos autonomia de
ir e vir, de falar, escrever, pensar, agir. E que sorte do mundo por existirem mulheres
assim. Em muitos locais, entretanto, a realidade da mulher é cheia de
restrições: da lei, dos homens, da religião, da cultura. E talvez a mais sutil
de todas as restrições, mas a mais poderosa: a da mente coletiva. A mente
coletiva, a teia feita de todas as perguntas não respondidas, de todos os
desejos não realizados, de todas as frustrações inconscientes de todo mundo,
que está lá vigiando quem quer ser diferente, quem quer ser livre. Se eu não
sou, você também não pode ser – é o mantra da mente coletiva.
Será que mesmo nós,
que nos consideramos privilegiadas por podermos fazer tanto no mundo e pelo
mundo, também não estamos presas a um protótipo distorcido de mulher moderna?
Por que tamanha ansiedade? Como está a nossa autoimagem – ela é feita de valores
ou é feita apenas de deveres e cobranças? Como está a nossa conversa interna –
de nós com nós mesmas?
A gente precisa
aprender a se proteger e se descolar desse inimigo oculto grudento que nos faz
sentir inertes e desmotivadas. A principal arma contra ele é não internalizar
essas negações. Preste atenção, seja vigilante contra o que você deixa entrar
na sua consciência. Desenvolva suas próprias imagens de vida. Seja super clara
a respeito de seus valores.
A prisão ou a
liberdade está sempre na consciência de cada um: como nos vemos, qual é a
história de vida que contamos pra nós mesmas, o que escolhemos como objetivos.
“Não importa o que
fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com
você” - Jean-Paul Sartre.
O observador dentro de
nós, a consciência, o senso de SELF, está sempre querendo nos guiar para a
evolução. Só precisamos parar o bla-bla-bla causado pela ansiedade, e ouví-lo –
mais fácil falar do que fazer, né? Sim, porque ele fala bem baixinho, e é de
poucas palavras, enquanto a mente coletiva está sempre gritando bem alto e te
seduzindo com mil imagens cuidadosamente trabalhadas no Photoshop, mas que simplesmente
não são as suas imagens, naturalmente lindas pra você. As suas visões de como
quer fazer o seu dia-a-dia, do seu próprio equilíbrio.
Então pra tentarmos
chegar a algum lugar, vamos partir do princípio: seja lá quem você for, seja
apenas mãe, apenas profissional, apenas filha, apenas amante, apenas esposa,
apenas amiga, apenas o que for que você ache “pouco”: você é o suficiente. Aqui
e agora. Você tem tudo que precisa dentro de si: a sua capacidade.
Se a gente quer se
melhorar, ampliar, evoluir, o desejo é o que nos move adiante, e o desejo bem
canalizado é um combustível pra vida, pra atingirmos nossos objetivos. E a vida
é feita de objetivos. Mas o que em
nós queremos ampliar e evoluir? No final do dia, no final do ano, no final da
vida, serão sempre as nossas escolhas, e só nossas. Somos só nós que podemos
decidir o que queremos ser para nós mesmas e para aqueles que estão a nossa
volta. Somente nós mesmas podemos criar nossas imagens e projetá-las no mundo
através dessas escolhas e ações no dia-a-dia, e assim colaborarmos para um projeto
muito maior que inclui a liberdade de todos os seres. Pois quando eu ajo com um
ser livre, naturalmente eu dou permissão para o outro se libertar também. E eu
sinto que esse é um propósito bom o suficiente.
Maisa La Macchia é comunicóloga pós-graduada em estudos culturais. Aspirante a yogini e viajante. Experiência em marketing para ONGs, marketing cultural e facilitação de grupos


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