quarta-feira, 9 de maio de 2012

Susan Andrews, a embaixadora da felicidade no Brasil



Antropóloga e psicóloga acredita que depois da Rio+20 o tema entrará na agenda global

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Susan Andrews no Parque Ecológico Visão Futuro, no interior de São Paulo: área foi fundada para tornar-se um modelo de desenvolvimento rural integrado
Foto: Marcos Alves
Susan Andrews no Parque Ecológico Visão Futuro, no interior de São Paulo: área foi fundada para tornar-se um modelo de desenvolvimento rural integradoMARCOS ALVES
PORANGABA, SP — Foi no alto de uma montanha da pequena cidade do interior de São Paulo que a palavra felicidade ganhou nome, sobrenome, corpo científico e até uma pessoa como ícone. O município, de pouco mais de oito mil habitantes e vocação rural, abriga a sede dos estudos sobre o indicador de Felicidade Interna Bruta (FIB), que é hoje uma alternativa de medição de bem estar das pessoas. É numa casa em formato hexagonal — considerado mais orgânico —, dentro de uma ecovila, que mora a mulher considerada a papisa do FIB no Brasil. Antropóloga e Psicóloga formada pela Universidade de Harvard e doutora em Psicologia Transpessoal pela Universidade de Greenwich, a americana Susan Andrews veio ao Brasil pela primeira vez em 1992 para participar da Eco-92, e nunca pegou o avião de volta. Encontrou seu lugar na pequena Porangaba, pôs-se a estudar a educação para a felicidade e tornou-se uma referência no assunto.
Susan acaba de ser nomeada embaixadora do indicador no Brasil pelo primeiro-ministro do Butão, Jigme Thinley, num encontro realizado no início do mês passado, na sede das Nações Unidas em Nova York, chamado "Felicidade e Bem-Estar: Definindo um Novo Paradigma Econômico". A reunião foi o principal sinal de que o indicador ganhou tom oficial na comunidade internacional e será ponto de debate na Rio+20. Estiveram presentes 700 representantes de governos, organizações religiosas, academia e sociedade civil de 80 países. Ali também foi eternizado um discurso do secretário da ONU, Ban Ki-Moon, ressaltando que o Produto Interno Bruto (PIB) é uma métrica que não leva em conta os custos sociais e ambientais do progresso. Segundo Susan, Ban Ki-Moon deixou claro que, para a própria ONU, o desenvolvimento sustentável está intrinsecamente ligado à felicidade e ao bem-estar.
— Ban Ki-Moon assinalou também que a Rio+20 precisará gerar um desfecho que reflita esse conceito. O Brasil, juntamente com o Butão, está se tornando uma referência mundial nesse novo paradigma de bem estar para todos.
Foi em 2006 que a antropóloga participou, pela primeira vez, em Bangkok, na Tailândia, de um seminário sobre o FIB. Hoje, viaja o mundo em contato com os principais pesquisadores do assunto. Desde o primeiro contato por telefone para a entrevista, ficou claro que Susan tem consciência da responsabilidade que carrega por ter se tornado a referência do FIB no país. Ressabiada, ela quis entender exatamente de que se tratava a reportagem e foram necessárias pelo menos cinco ligações para alinhar o conceito do indicador e confirmar a ida da equipe à ecovila.
Ao contrário do que se poderia esperar diante de tanta resistência, no entanto, não foi uma figura sisuda que se apresentou para a entrevista. No lugar, um sorriso largo e um abraço caloroso dão o tom de uma Susan já aberta ao diálogo e a uma relação de confiança. Aí, entende-se: a americana se preocupa com a possível banalização que um tema tão importante possa adquirir com uma superexposição na mídia. Por isso, não aceita reduzir o assunto e se preocupa com a centralização do FIB em sua figura. Lembra o tempo todo que há uma equipe trabalhando com ela, e comemora o fato de governos internacionais, nacionais e empresas estarem interessados no movimento. Perguntada sobre os riscos que a banalização do tema pode trazer, ela aperta os olhos pequenos verdes e a boca, puxa o braço da repórter com calma, pensa antes de responder e garante:
— Temos que comemorar o fato de as pessoas estarem olhando para o bem estar e a felicidade. Acho muito difícil o FIB não ser discutido na Rio+20. É um dos assuntos cujo tempo chegou — disse Susan, em referência ao poeta Victor Hugo.
Assim como outros pesquisadores do mundo inteiro, Susan espera que a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontecerá entre 20 e 22 de junho na cidade, seja o momento de oficializar o tema na agenda global pela primeira vez.
Antes que se pense que o assunto é etéreo e restrito a monges budistas, vai logo o aviso: a felicidade de que estamos falando não tem cunho religioso, é analisada em nove dimensões e tem até fórmula. O índice ficou caracterizado por ter ganhado o mundo na esteira do Butão, reino budista encravado nos Himalaias. Mas hoje é utilizado em diferentes realidades.
— Um dos maiores equívocos criados em torno do FIB é o de ser ele um artefato butanês, talvez criado por renunciantes nas cavernas nos Himalaias! O conceito original do FIB foi criado pelo rei do Butão, sim, mas foi aprofundado por um grupo internacional de intelectuais e pesquisadores ao longo das últimas décadas, sob o patrocínio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) — disse Susan.
O FIB é um indicador sistêmico que leva em conta questões subjetivas e é composto por nove dimensões: bom padrão de vida econômica, boa governança, educação de qualidade, boa saúde, vitalidade comunitária, proteção ambiental, acesso à cultura, uso equilibrado do tempo e bem estar psicológico.
Susan trabalha hoje na área de biopsicologia, dividindo-se em mil para dar conta de cursos que ocupam quase todos os finais de semana na ecovila que coordena, o Parque Ecológico Visão Futuro, e de demandas para palestras e encontros sobre o FIB, Educação e Saúde.
Às vésperas da Rio+20 e do Seminário Felicidade Interna Bruta, que acontecerá no Museu de Arte Moderna, no dia 19 de junho, um dia antes do início da conferência da ONU, Susan está mais conectada do que nunca. Embora viva no friozinho da montanha da ecovila, a duas horas da capital paulista, longe de qualquer barulho que se assemelhe a trânsito ou burburinho de rua, e longe até de televisão, a pesquisadora se mantém conectada pelo smartphone que a acompanha. Mas a placidez alcançada por meio da respiração profunda e de várias outras técnicas da Ciência Hedônica — aqui esclarecida como ciência da felicidade e não do prazer apenas — não sai do rosto e o contato pessoal está sempre em primeiro lugar. As redes sociais também fazem parte de sua rotina: via internet, a antropóloga e biopsicóloga fica aberta ao resto do mundo.
O principal desafio agora tem sido mostrar a utilidade do FIB em cada realidade. Para os indivíduos, o recado é que para ser feliz não é necessário largar a vida na cidade e ir para uma ecovila. Já os governantes podem usar o FIB para descobrir se as necessidades básicas da população estão sendo atendidas e, assim, formular políticas públicas:
— Cada vez mais estudos estão revelando o impacto negativo da urbanização na nossa saúde mental. Além de engarrafamento, poluição e etc é a chamada “solidão no meio da multidão”. Mas a Ciência Hedônica mostra que felicidade é uma competência que pode ser aprendida. As pessoas podem incorporar simples práticas nas suas rotinas diárias. Parte do nosso Processo FIB no Brasil é o programa Educação para a Felicidade, que ensina não somente adultos, mas também jovens e crianças a aumentarem sua energia positiva.
A ideia é que, aliadas a políticas públicas que melhorem as condições externas de bem-estar, certamente podem aumentar a qualidade de vida das pessoas, mesmo nas mais densas metrópoles.
Silêncio, frio, cheiro de mato. E o coração acalma.
Os cerca de 20 minutos de estrada de chão que separam o frenesi da rodovia paulista Castelo Branco da Ecovila Visão Futuro não são suficientes para desacelerar a respiração e entrar no clima do local. O cheirinho de mato e o friozinho de montanha no caminho vão anunciando o que espera o visitante à frente. Mas não evitam o choque do descompasso entre o coração acelerado pelo mundo lá fora e o silêncio que invade os portões da ecovila.
À primeira vista, o que se vê é uma casinha, em formato hexagonal, localizada no topo do morro. Sob o pôr do sol, ela parecia quase tombar no horizonte. No início do tour pelo local, que ganhou status de parque ecológico, descobre-se nas palavras do guia Niels Gudme que se trata de uma das salas onde são realizados cursos de biopsicologia. Segundo ele, quase todos os finais de semana, a ecovila recebe pessoas de diferentes formações para aprender técnicas de harmonização psíquica, física e energética. Nesse momento, a fundadora da ecovila, Susan Andrews, sussurrou:
— Recebemos professores, psicólogos, mas também engenheiros, advogados, etc. Ano passado, recebemos policiais e bombeiros numa parceria com o governo de Santa Catarina. Eles são submetidos a muito estresse.
O curso inteiro tem 350 horas e é realizado em fins de semana espaçados ou em semanas inteiras de imersão. Mas nem todo mundo aguenta até o final, como explicou Niels:
— O perfil dos alunos é muito variado e em geral as pessoas curtem até a própria adaptação ao local. Mas há aqueles que acordam no dia seguinte e vão embora, porque percebem que a vivência não é para eles. Sei lá, tem gente que tem dor de cabeça com engarrafamento e tem gente que passa mal aqui — disse Niels, piadista oficial da ecovila.
O guia é na verdade tradutor e conheceu Susan na Rio 92, quando a americana ainda não falava português. Ele foi um dos primeiros a receber o convite de Susan para ajudá-la na implantação da ecovila, e topou o desafio de mudar de vida. Entrou na empreitada com a antropóloga, quando, com patrocínio do governo da Suécia, eles tinham nas mãos apenas nove hectares de terra em Porangaba, um único alojamento com sete quartos e a ideia de transformar o lugar num modelo de desenvolvimento rural integrado, conforme a filosofia do mestre indiano Prabhat Rainjan Sarkar.
Quase vinte anos depois, a ecovila tem hoje cem hectares e 12 moradores, quase todos funcionários do próprio parque. Com a receita dos cursos, a ecovila mantém uma escolinha para cerca de 20 crianças da região, a partir dos três anos de idade, que têm um aprendizado muito diferente da pré-escola tradicional. Eles têm alfabetização regular, mas a partir da contação de histórias, e do contato. Brincam em roda, aprendem lições por meio de teatro e música, colocam a mão na terra, aprendem a relaxar, respiração profunda até a se automassagearem.
Na linha do reaproveitamento, a ecovila faz captação de água da chuva para abastecer os sanitários e tenta reciclar lixo ao máximo. Parte da energia vêm do módulo solar e um catavento para energia eólica. Mas eles ainda não são autossuficientes, nem em termos de energia, nem de alimentação. Essa é a meta para os próximos anos. Lá não se come carne, numa dieta lactovegetariana, e boa parte dos alimentos usados na cozinha do chef Luiz Carlos Cardoso vêm da horta cultivada com técnicas agroecológicas. Mas nada que tenha impedido uma suculenta lasanha com queijo e pedacinhos de brócolis no jantar.
— As nossas crianças também não deixam de comer cachorro quente, só que fiz uma adaptação com carne temperada de soja. Comemos como pessoas normais — brincou Cardoso.
O chef é artista plástico e também está entre os amigos de Susan convidados para fundar a ecovila. Perguntado se aceitou de primeira, ele fez uma pausa, trocou um olhar com a antropóloga e brincou:
— Claro que não — contou, rindo. — Dezessete anos atrás ela me perguntou. Eu disse: ‘não sei’. Vim para passar um mês, fiz minha casinha e fui ficando.
Como a maioria das construções da ecovila, a casa de Luiz tem formato hexagonal, o que, para eles, pode facilitar a circulação de energia por ser um formato mais orgânico, no lugar de quadrados ou retângulos. Mas os materiais usados na maioria das casas são comuns: cimento e cal. Com uma proposta de arquitetos ligados à bioconstrução que conheceram a ecovila por meio dos cursos, isso deve mudar. Semana passada, durante a entrevista, eles estavam no local, de galochas e e com as mãos na massa, montando uma espécie de showroom que servirá de mostruário para os visitantes da ecovila, como contou a arquiteta Gabrielle Astier, de 24 anos:
— A fundação desse showroom é de pedra sobre pedra, por encaixe, e sem cimento. Numa das paredes, colocamos tocos descartados de madeira de eucalipto com vidro quebrado. E cada parede vai receber um tipo de bioconstrução. Não é que não usemos cimento e cal, mas usamos de forma racional.
O grupo está morando na ecovila por uns dias, montando a casa de bioconstrução. Ela ficará lá, assim como as outras tecnologias sociais e ambientais da ecovila. O site do local é o visaofuturo.org.br.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio20/susan-andrews-embaixadora-da-felicidade-no-brasil-4838606#ixzz1uPWFQ2Sa
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