O pós parto de maneira geral já é permeado por um turbilhão
de emoções, assim o pós parto da Maria não foi diferente. Se por um lado já
estamos acostumadas com muitas coisas operacionais do dia a dia com um bebê
novo em casa como, por exemplo: trocar fraldas, dar banho, amamentar,
identificar o motivo do choro e tantas outras, temos uma primeira filha que
está vivendo um processo de luto muito intenso: perdendo seu trono!!!
Eu me lembro que o pós parto da Lisa (minha primeira filha)
foi muito sofrido para mim e durou muitos meses e, não, somente os 40 dias do
puerpério. Foi um luto muito dolorido da minha independência. Me vi sozinha em
casa enquanto minhas amigas (na sua maioria sem filhos) trabalhavam e levam
suas vidas. Me sentia sozinha e sem ter muito com quem compartilhar o que
estava acontecendo comigo, quais eram meus sentimentos, minhas dores, meus
medos, do que sentia falta. Tinha um sentimento muito ambivalente: queria sair
correndo e ao mesmo tempo não conseguia desgrudar da minha cria. Todas as
saídas eram doloridas e sentidas intensamente. Aos poucos fui me “curando” de
toda essa dor e nasceu o amor... Eu sentia muita culpa por desejar ter a minha
“antiga vida” de volta, tive ciúmes do Pedro (não de outras mulheres, mas do
fato dele poder trabalhar, ter pernoites fora, almoçar sem ser interrompido,
tomar banho no tempo dele, caminhar na rua). Ainda hoje me emociono e sinto um
nó na garganta ao reconhecer esses sentimentos que, no meu auto julgamento,
não são muito nobres. Peço licença aqui
para compartilhar algo útil para vocês mamães que me acompanham. Na Comunicação
Não Violenta aprendemos que sentimentos que avaliamos como negativos são
somente a manifestação de necessidades não atendidas. O que fiz nesse momento?
Parei e fui buscar o que estava me faltando: Intedependência, liberdade, autonomia.
Reconhecer isso me ajudou a buscar, aos poucos, atender de alguma forma essas
necessidades mesmo com um recém nascido em casa. Como? Um café com uma amiga
fora de casa, uma voltinha sem destino, uma saída para cuidar de mim e,
principalmente, retomar minha prática de yoga.
Outra coisa que mudou muito no pós parto da Lisa foi que meu marido
voava na rota e, consequentemente, tinha longos períodos fora, com 5 dias já
estava fora e eu sozinha com a Lisa. Somado a isso a Lisa teve muita cólica,
refluxo e alergia à proteína do leite, ou seja, chorou por 40 dias sem eu saber
o que estava acontecendo. Foi enlouquecedor, mas passou.
A chegada da Maria foi completamente diferente. Não tive
esse luto da antiga vida, já que já estava em outro ritmo, trabalhando menos e
vivendo bastante intensamente o papel de mãe. Já não tinha muito tempo livre só
para mim, eu e o Pedro já tínhamos poucos espaços só nossos e, hoje, diferente
do primeiro filho sei com toda a certeza que é uma fase (talvez longa) mas que
vai passar e teremos nossos espaços novamente, iremos conquistar isso em algum
momento. Então, meu coração está mais calmo no que se refere a “minha vida de
volta”. Por outro lado, tem a Lisa, o luto dela e a nossa forma de lidar com a
manifestação dos seus sentimento. Os
primeiros 15 dias foram muito intensos e sofridos para a Lisa. Ela não
conseguia dormir no ritmo dela, sempre dormiu cedo, dormia à tarde e fazia isso
sozinha. Resultado: durante esses 15 dias não dormiu à tarde, dormia 22h/23h e
precisava de companhia para dormir, de preferencia a minha (sendo que eu estava
amamentando uma recém nascida intensamente). Quando estava amamentando ela
queria que eu lesse, brincasse, pulava ao meu lado, pedia para eu leva-la no
banheiro, subia em lugares perigosos, jogava água ou comida no chão, fazia tudo
que pudesse chamar a atenção. E por fim, o que era mais doloroso para mim,
pedia colo “mamãe! Tem colo para duas?” e me entregava um porta retrato com uma
foto sua bebê ( para que eu não a esquecesse). Novamente os meus sentimentos
oscilavam entre raiva por eu ter a expectativa de que ela “se comportasse e
colaborasse comigo”, medo “como vou dar conta disso no longo prazo?” e tristeza
“tadinha do meu bebê sofrendo”. Muitas e muitas vezes chorei por ela e com ela
nos braços sem saber como amenizar o que ela estava passando. O que fiz?
Novamente todo o meu aprendizado com Comunicação Não Violenta me ajudou.
Reconheci os sentimentos dela e os nomeei. Filha: Você está com ciúmes da
Maria? Ela respondia: Sim (ela tem dois anos e meio). Eu dizia: Tudo bem meu
amor, é normal você sentir ciúmes, vai passar e a mamãe te ama também, mas tem
que dar mama para a Maria porque ela está com fome. Outra vez perguntava: Você
está triste porque a mamãe não está te dando atenção? Ela respondia: sim, quero
atenção e começou a pedir atenção ao invés de “fazer arte!” Sempre deu certo?
Claro que não. Não sou perfeita, longe de ser. Foram muitas e muitas vezes que
estourei, gritei, mandei ela para o quarto, perdi a paciência. Aos poucos a dor
da Lisa foi amenizando e nosso ritmo foi voltando a normalidade, se é que
existe isso com um recém nascido em casa. Eu fui me “desgrudando” da Maria e me
voltando novamente para a Lisa. Todos os dias tento me dedicar a ela: sair, nem
que seja uma ida à farmácia ou à padaria com ela, uma escapadinha na pracinha
(deixo o Pedro com a Maria), dar o almoço para ela enquanto a Nilda (nossa
ajudante) segura a Maria para arrotar.
Aí vem outro desafio, o não descanso. No pós parto da primeira filha,
quando ela dormia eu dormia, descansava, fazia yoga. No pós parto da Maria,
quando ela dorme e a Lisa está acordada eu brinco! Aproveito o sono dela da
tarde para fazer algo por mim: meditar, descansar, tomar um banho mais demorado
ou escrever (como hoje). É mais cansativo, mas o amor entre elas está
crescendo. O coração enche de alegria quando a Maria chora e a Lisa diz: Mamãe
pega a Maria, ela está chorando, acho que ela quer mamar. A crise de ciúmes
ainda não passou e acho que não vai passar tão cedo, acho que se manifestará de
formas que já conheço, como “Mamãe, estou com dor de barriga, faz massagem
(quando a Maria está chorando com cólica” e tantas outras formas que ainda
estão por vir. Eu escolhi não colocar a Lisa na escola esse ano para podermos
viver juntas a chegada da Maria, muitas mães me chamaram de louca, mas ainda
com todo o cansaço e exaustão estou feliz com essa escolha de ter a Lisa
pertinho da Maria nesses primeiros meses de vida. Espero dar conta de tudo
isso, acho que estamos caminhando juntos eu e o Pedro para conseguirmos.
Se me perguntarem, como é cuidar de dois: Eu direi exaustivo
e ao mesmo tempo apaixonante.





