sexta-feira, 11 de julho de 2014

Preparando Herdeiros para a Vida






















 Vou iniciar esse artigo contando algumas histórias reais sobre como duas famílias empresarias lidaram com o tema herdeiros e suas consequências. Todos os nomes citados são pseudônimos para manter a confidencialidade.

História 1

“Encontro com três sócios de uma empresa familiar de médio porte. Todos os sócios estão na casa dos 70 anos e gostariam que os filhos fossem preparados para serem herdeiros do negócio. São 11 herdeiros e cada fez sua escolha profissional afastada do negócio da família. Temos nesse grupo dentistas, médicos, administradores, advogados, enfim cada um construiu sua história, pois era proibido nessa empresa familiar filhos aproximarem-se da empresa.”

História 2

“Pedro está cursando a faculdade de engenharia, está no último ano, chega até uma coach por indicação de um amigo, pois não está feliz. Inicia a conversa dizendo vai entregar seu diploma para o pai e não sabe nem por onde começar, pois seu sonho está relacionado ao esporte e já passou seu tempo, segundo ele.”

 Por que iniciar esse artigo contando esses dois casos? Porque eles nos mostram decisões opostas: a primeira história de afastamento do negócio familiar, já a segunda de incentivo excessivo de aproximação. Porém, nenhuma dessas duas estratégias atendem a necessidade do principal ator: o próprio herdeiro.

Na história 1, estamos atendendo a necessidade dos sócios de não trazerem os filhos para o negócio a fim de evitar a associação da carreira dos seus filhos com o negócios familiar, prevenindo, consequentemente, futuros conflitos e disputas. Na segunda história, há o aparente desejo do pai de ter o filho trabalhando no negócio familiar. Enquanto, faltou para o filho, por motivos não expressos, força suficiente para confrontar o desejo do seu pai. Esses são apenas dois exemplos da complexidade presente nas escolhas dos herdeiros de um negócio familiar.

A título de alinhamento e clareza gostaria de definir herdeiro: filhos, netos, bisnetos de empresários e empresárias que herdaram o patrimônio de um negócio familiar. O herdeiro não será, necessariamente, o sucessor, assim como, poderá ou não, ocupar uma posição de gestão na organização. O herdeiro, sim, herdará propriedade e precisará, futuramente, tomar decisões com relação a empresa e seu patrimônio. Portanto, afastar o herdeiro do negócio não parece ser uma boa estratégia, assim como não parece ser produtivo “obriga-lo” a escolher uma carreira relacionada com o negócio da sua família. Diante dessa reflexão, podemos concluir que falar de carreira e vida do herdeiro passa por considerar a existência do negócio familiar.

Os coaches que optarem por trabalhar com herdeiros precisam se preparar para entender sobre o tema “empresas da familiares”. É imprescindível que busquem conhecer um pouco dos desafios e dilemas daqueles que estão interligados a esse contexto e, dos impasses e dilemas, que permeiam as escolha profissional de um herdeiro.

Há algum tempo atrás, tive a experiência de trabalhar com uma coach bastante preparada e competente. Atendemos, em um projeto comum, dois herdeiros cada uma. Certa vez, essa coach, me procurou confidenciando sua dificuldade de lidar com tantos papéis no decorrer do processo coaching de seus clientes (papel de líder, papel de filho, papel de proprietário). Como coach precisamos ter noção da complexidade de um sistema familiar para que possamos ser capazes de apoiar os herdeiros que nos procuram no seu processo de auto descoberta e crescimento.

Escolher o que deseja fazer na sua vida e carreira por si só já causa uma série de conflitos, para um herdeiro, pode envolver um patamar maior ainda à medida que terá que comunicar e negociar com diversos stakeholders (pai, mãe, tios, tias, primos e primas), principalmente, quando as suas expectativas pessoais divergem do sonho que a família possui explícita ou implicitamente para ele (a).

Um dos maiores estudiosos sobre o tema empresa familiar, John Davis, costuma dizer que é saudável que os herdeiros tenham escolhas diferentes do negócio da família. Segundo o especialista, a família tende apresentar crescimento geométrico, enquanto a empresa irá crescer em proporções aritméticas. Assim, vai chegar uma hora que o negócio não dará conta das necessidades financeiras de todos os seus membros. Uma boa forma de prevenir esse dilema futuro é estimular as próximas gerações a construir seu plano de vida e carreira considerando seu papel como herdeiro, mas não dependendo do negócio para seu sustento e realização.

Herdeiro/sócio feliz = conflitos minimizados. Pessoas que são bem sucedidas e realizadas pessoal e profissionalmente certamente serão melhores sócios e contribuirão positivamente para a evolução da empresa familiar. E como o coaching pode auxiliar nesse contexto? Auxiliando o jovem herdeiro a fazer escolhas conscientes, desenhando um projeto de vida e carreira que atenda às suas expectativas e que lhes permita utilizar ao máximo seu potencial e suas competências. O coach pode e deve ajudá-lo a identificar sua real vocação.

Como descobrir o que realmente quero na vida?

Essa é uma boa pergunta e quando estamos atuando como coaches de herdeiros precisamos desafiá-los, além dessa pergunta, a refletir se eles estão escolhendo determinado caminho porque é o caminho valorizado no contexto da família. “O caminho que você, herdeiro, escolheu  é o mais fácil de negociar com os pais? Ou é o caminho que será mais fácil de colher os resultados rapidamente?” O problema de tomar decisões pautadas nas questões acima é que, lá na frente, irá surgir uma sensação de insatisfação ou vazio existencial. Desafiar a história e o legado de uma família ou de uma geração não é uma tarefa fácil, porém escolher passa por isso.

Durante diversos processos de coaching com herdeiros percebo que precisamos explorar bastante o que traz satisfação e o estilo de vida que o herdeiro espera ter. Por exemplo, “ele está pensando em escolher direito, mas detesta formalidade e adora estar ao ar livre”, será que essa profissão vai atender as necessidades dele quando tiver que viver todos os dias a realidade profissional? De forma geral, quando um jovem está buscando escolher sua faculdade os pais acabam estimulando a escolha de acordo com as matérias que o jovem apresentou sucesso no seu histórico escolar, quando a questão é algo bem diferente. Os pais e educadores deveriam indagar o herdeiro sobre outros aspectos, por exemplo: Que tipo de estilo de vida você gostaria de ter? Qual a carreira que mais atende essas necessidades? Como você pode descobrir se o que você imagina sobre essa carreira condiz com a realidade?

Após responder as questões acima podemos partir para as competências. Explorar com o jovem seus talentos (competências técnicas e comportamentais) que poderiam apoiar o plano de carreira ou, que poderão ser desafios frente à escolha do jovem herdeiro. Quando falamos de competências temos um desafio no caso dos jovens herdeiros, principalmente, se sua única experiência profissional foi na empresa familiar. Por quê? O herdeiro raramente recebe feedback. O fato de ele ser filho ou parente do dono influência o tipo de feedback que recebe, fazendo com que, muitas vezes, o herdeiro tenha dúvida com relação às suas competências. O coach pode auxiliar no processo de receber feedback oferecendo a possibilidade de realizar entrevistas de heteropercepção com conhecidos do coachee e fornecendo feedback neutro ao coachee.

Muito bem, até aqui a ajuda do coaching foi em um processo de auto descoberta onde o herdeiro vai olhar para si mesmo, para seus desejos, suas competências e planejar o que gostaria de fazer ou viver na sua vida. Passada essa fase o que temos à frente? Agora o herdeiro irá iniciar o processo de planejamento e implementação desse plano, que passará por comunicar suas escolhas a família. Novamente, teremos que lidar, como coaches com questões complexas e emocionais. “Como vou falar para o meu avô que não quero trabalhar com ele? Como expressar, sem magoá-lo, que me motiva é estudar? Como escolher fazer mestrado e doutorado quando na cultura familiar o que é valorizado é o trabalho mão na massa?” Esse é apenas um exemplo do que pode surgir nessa fase do coaching. É claro que o coach não dará respostas, mas deverá trabalhar com esses “fantasmas internos” e reais que o coachee precisará lidar para colocar o seu sonho em prática. “Será que o meu avô, que é quem me apoia financeiramente, irá continuar me apoiando se a minha escolha divergir da sua expectativa?” Coaches, rumo à trabalhar os obstáculos, o plano B, o plano C, ampliar a rede de apoio, enfim, trabalhar todos os recursos que ajudarão os coachees na sustentação de suas escolhas. Confrontar o valores familiares e as expectativas da família faz parte do processo de individuação, um tópico de extrema  importância ao trabalharmos o meu projeto de vida e carreira de um herdeiro.

Costumo brincar que coaching não é solução para tudo, mas pode ajudar. Um grande desafio ao coach que trabalha com herdeiros e, também, conhece profundamente sobre o tema empresa famílias (o que é necessário) é manter sua posição de coach fazendo perguntas poderosas que auxiliem o próprio coachee a encontrar seu caminho e as soluções para lidar com esses dilemas que envolvem a família, a gestão, a propriedade e sua vida. Provavelmente, o herdeiro usará as habilidades desenvolvidas no coaching de sua escolha profissional para lidar com diversos outros dilemas que envolverão o seu papel como herdeiro de um negócio família, futuramente. É preciso reforçar, herdeiro ele continuará sendo, não há escolha, precisará se preparar para isso. Por outro lado, se irá associar a sua escolha profissional ao negócio da família é sua escolha e, essa escolha, pode mudar ao longo da sua vida.

Patricia Müller Buzolin
PCC - Professional  Coach Certified pela ICF - International Coaching Federation
Coach Sênior pela ICI – International Coacing Integrated e Formação no Erickson College “A Arte e a Ciência do Coaching



Nenhum comentário:

Postar um comentário