ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.
Carl Jung
Quando o convite da Iaci para a conversa com Marcelo Cardoso chegou, lembrei-me da conversa que ela teve comigo no CONARH, sobre a necessidade de nos engajarmos no bom combate pelo Coaching que acreditamos.
Totalmente comprometida com os princípios ericksonianos, à frente do IMR – Coaching & Development e cerrando fileiras com o ICF Brasil (International Coaching Federation), onde faz parte da Diretoria, ela vem se desdobrando, levantando bandeiras, construindo paliçadas, viabilizando palanques e o que mais for necessário em defesa desse ideal.
O convite que fez para o bate papo com Marcelo insere-se nessa jornada:
“Marcelo aceitou nosso convite para um papo com os alunos e ex-alunos do Erickson College para falar sobre a responsabilidade de ser Coach. Vivemos um momento de grande expansão da atividade de Coaching em que muitas coisas têm sido feitas sob este nome, nem sempre pautadas pela seriedade, responsabilidade e até ética que a atuação requer. Temos uma enorme responsabilidade de manter a prática de Coaching em elevado nível de profissionalismo. Sobre estes e outros questionamentos profundos e instigantes, teremos oportunidade de conversar com este ser humano tão especial que é Marcelo!”
Reagendei compromissos, ajustei horários e, quando me dei conta, lá estava eu no Tryp Itaim Hotel para mais um evento ericksoniano, tomando café com amigos do curso de Coaching e sendo apresentado a outros amigos Coaches.
Na sequencia, entrei na sala onde aconteceria a conversa com Marcelo e ratifiquei minha condição de aprendiz, inspirado pelo ambiente de sala de aula e pela contagiante sensação de “compartilhamento” instaurada.
Nesse clima lembrei-me que estávamos vivendo o final do inverno e ocorreu-me, figurativamente, que pela fresta da porta do inverno já era possível antever a primavera... Essa antevisão fez juz ao que presenciaríamos ali!
Iaci entrou na sala com Marcelo e iniciou sua apresentação, que sinteticamente podemos assim dispor:
Marcelo é um daqueles seres humanos especiais com quem tive a oportunidade de trabalhar e conviver e é um prazer tê-lo aqui para trocarmos idéias e ouvirmos sua opinião sobre nossa atividade de Coaching.
Sua trajetória profissional é marcada pela transformação que inspira e faz acontecer em todas as empresas por onde passa.
Desde maio é Diretor Executivo do Grupo Fleury, responsável por Recursos Humanos, Estratégia, Sustentabilidade e Inovação, com a missão de contribuir para a manutenção da sua liderança no segmento e, ao mesmo tempo, preparar a empresa para os desafios de transformação no mercado de saúde.
Mantém paralelamente atividade no campo da Responsabilidade Social, sendo Presidente da ONG Instituto Integral Brasil, ligada ao Integral Institute, fundado nos Estados Unidos em 1998 pelo filósofo Ken Wilber. Esta entidade tem a missão de criar e manter redes permeáveis e emergentes, nos segmentos de negócios, bem-estar e saúde, educação e sustentabilidade.
De maio 2008 a fevereiro de 2013 foi Vice Presidente da Natura, responsável por Desenvolvimento Organizacional, Estratégia, Administração, Recursos Humanos e Sustentabilidade.
De março 2004 a abril 2008 esteve na DBM, tendo ocupado o cargo de Presidente e de CEO para a América Latina.
Anteriormente passou pelo GP (Garantia & Partners), ocupando a posição de CFO da holding de entretenimento responsável pelo criação e implantação do parque Hopi Hari e, antes disso, Gerente Financeiro da Método Engenharia.
Ato contínuo, demonstrando uma postura de simplicidade e empatia, Marcelo sentou-se ao lado de Iaci, em frente aos convidados, para, calmamente, iniciar a conversa.
Sentados que estavam ao longo de uma mesa em forma de “U”, os presentes formaram com eles uma corrente progressivamente interativa e alquimicamente energizada, numa espiral virtuosa de humanismo, sensibilidade, despojamento e presença participativa.
Marcelo começou falando de sua inquietação existencial, de seu compromisso com o processo transformacional e da sua decisão de levar a questão da espiritualidade para o trabalho e para as organizações.
Sobre a atuação do Coach, citou Jung, “devemos conhecer os limites que ainda não resolvemos”, assumirmos que limites são nossa responsabilidade e, uma vez identificados, que trabalhemos conosco mesmo, não nos permitindo eticamente qualquer postura diferente. Não devemos projetar no outro nossos pontos escondidos, não devemos fazer aquilo que não queremos e, principalmente, devemos escolher com clareza o que queremos.
Venho trabalhando a sombra, e a sombra é uma grande aliada para encontrar a coragem para dar o passo no vazio, dar o passo de fé, que é dolorido, mas libertador. É abrir mão da autoria, da identidade, para se colocar como centro de ação e de manifestação do universo. Ter consciência do que estou pensando e estar inteiro com a realidade como ela é, abrindo mão da autoria.
Como Coaches devemos ter consciência de que não ajudamos ninguém e não viemos ao mundo para uma missão grandiosa. Devemos nos conscientizar da importância do paradoxo, da importância do propósito e da capacidade de um propósito nos dar força e integridade, sem nenhuma preocupação com o que acontece fora de nós.
Para o coaching, faço um paralelo sobre o que penso sobre terapia: não acredito em cura terapêutica, eu acredito em consciência nos permitindo dar respostas diferentes. Este é o caminho.
Como Coaches devemos facilitar o desenvolvimento do indivíduo, pois este tem condições de se desenvolver e chegar às suas próprias conclusões.
Tenho trabalhado também com “Somatic Experiencing”. “Na Vivência Somática, você inicia a sua própria cura ao reintegrar partes perdidas ou fragmentadas de seu eu essencial. Para realizar esta tarefa, você precisa de um intenso desejo de se tornar inteiro de novo. Este desejo servirá como uma âncora, por meio da qual a sua alma pode se reconectar ao seu corpo. A cura irá acontecer à medida que os elementos de sua experiência que estavam congelados (sob a forma de sintomas) forem liberados de suas funções relativas ao trauma, permitindo que você descongele gradualmente. Você tem a possibilidade de se tornar mais fluido e funcional, à medida que descongela.”01
“A maioria das culturas, incluindo a nossa, sofre da opinião dominante de que força significa capacidade de aguentar; que é de algum modo heroico ser capaz de continuar em frente independentemente da severidade de nossos sintomas. A maioria de nós aceita sem questionamentos esse costume social. Usando o poder do neocórtex, nossa habilidade de racionalizar, é possível dar a impressão de que se atravessou um acontecimento bastante ameaçador, mesmo uma guerra, sem nenhum arranhão; e isso é o que muitos de nós fazemos. Continuamos cerrando os dentes e conseguimos a admiração dos demais – heróis, como se nada tivesse acontecido conosco.” 01
“Esses costumes sociais cometem uma grande injustiça com o indivíduo e a sociedade, ao nos encorajar a sermos super-humanos. Se tentarmos seguir com a nossa vida, sem antes atender aos apelos urgentes que nos guiam de volta a essas experiências angustiantes, então a nossa exibição de força passa a ser nada mais do que ilusão. Enquanto isso, os efeitos traumáticos ficam cada vez mais graves, firmemente enraizados e crônicos. As respostas incompletas, que agora estão congeladas em nosso sistema nervoso, são como bombas-relógio indestrutíveis, programadas para explodir quando evocadas pela força. Continuaremos a ter explosões inexplicadas até que os seres humanos possam encontrar as ferramentas apropriadas e o apoio necessário para desmobilizar essa força. O heroísmo real vem da coragem de reconhecer abertamente as próprias experiências, não suprimi-las nem negá-las.”01
Podemos, assim sintetizar a conversa com Marcelo:
Do indivíduo ... “Se você expressar o que está dentro de você, então o que está dentro de você será sua salvação. Se você não expressar o que está dentro de você, então o que está dentro de você irá destruí-lo.”02
Ao coletivo ... “Na vida, todos estamos presos numa rede inescapável de interdependência. Aquilo que afeta cada um de nós diretamente, afeta todos nós indiretamente.”03
(*)B. Afonso Macagnani é executivo de Recursos Humanos, coach pelo IMR / Erickson College e mestre em Administração de Empresas pela PUC–SP. Contato: (e-mail) macagnani@osite.com.br e (celular) +55 (11) 9 9992-0740.
01 Texto identificado no livro “O Despertar do Tigre – Curando o trauma” de Peter A. Levine com Ann Frederick (tradução Sonia Augusto) – São Paulo: Summus Editorial, 1999, para consubstanciar citações de Marcelo Cardoso.
02 Em “Gnostic Gospels” de Elaine Pagels, Random House, 1979.
03 Frase de Martin Luther King Junior.

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